Observatório da Imprensa analisa se Rachel Sheherazade é mesmo jornalista

Rachel Sheherazade ganhou fama criticando o carnaval. Num vídeo de 2011, a moça refletiu de que a festa da carne tirava o foco das coisas importantes do Brasil. A julgar pelo mais recente comentário da jornalista e comentarista do SBT Brasil, as “coisas importantes” não fazem parte de seu raciocínio.
No dia primeiro do mês de fevereiro, um garoto negro, suspeito de roubo, foi preso num poste pelo pescoço com uma tranca de bicicleta por autodenominados “justiceiros”. Não fosse o socorro da coordenadora da ONG Projeto Uerê Yvonne Bezerra de Mello, o rapaz teria ficado por ali mesmo.
Sheherazade chamou a ação de “legítima defesa coletiva”. “O marginalzinho amarrado ao poste era tão inocente que em vez de prestar queixa contra seus agressores, preferiu fugir antes que ele mesmo acabasse preso”, disse. “O Estado é omisso. A polícia, desmoralizada. A Justiça é falha. O que resta ao cidadão de bem, que, ainda por cima, foi desarmado? Se defender, claro”, concluiu.
Como a liberdade é mais importante do que o pão, já diria Nelson Rodrigues, este artigo não pretende discorrer sobre as ações que o SBT ou qualquer órgão ofendido pelos comentários da moça possa fazer. Este texto pretende analisar se Rachel é mesmo uma jornalista, como se apresenta.
A tática das forças e dos corpos
Segundo o código de ética dos jornalistas da Fenaj, é dever do jornalista opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos. E é no texto da Declaração citada no código que podemos encontrar o seguinte trecho: “Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.” Ou seja, não foi preciso ir muito longe para perceber que o comentário de Sheherazade caminha no sentido contrário do que prega o código de ética do jornalista. Avancemos.
Pensemos em todos os impropérios dignos de uma unanimidade (que costuma ser burra e que hoje é representada pelo número de likes de um comentário numa notícia): “Achei pouco”, “Bandido bom é bandido morto”, “Não gostou? Leva pra casa” etc. E é nesse tipo de pensamento que Sheherazade fundamenta seus argumentos. E é também nesse tipo de pensamento que os torturadores de Damiens, o condenado que abre o clássico Vigiar e Punir, de Michel Foucault, embasavam suas ideias. Como Sheherazade, eles tinham a religião como prumo e acreditavam na sujeição como imposição do poder.
Para Foucault, a totalidade do indivíduo não é amputada, reprimida, alterada por nossa ordem social, mas o indivíduo é cuidadosamente fabricado, segundo uma tática das forças e dos corpos. O que a ação dos justiceiros nos diz sobre o poder contemporâneo? O que o comentário de Rachel nos mostra sobre o país? E se o garoto espancado não deu queixa, foi por que não queria ser preso ou tinha medo de apanhar da polícia?
Comportamento irresponsável
Deixemos a análise foucaultiana de lado e voltemos ao mundo jornalístico. Ainda com o comentário da jornalista do SBT em mente, lembremos de Eugenio Bucci, em seu Sobre Ética e Imprensa, quando o autor afirma que o primeiro obstáculo que se apresenta para quem quer investigar, entender e discutir a ética dos jornalistas são os próprios jornalistas. Portanto, se Rachel estiver lendo estas palavras, irá refutá-las com veemência. E aqui não há qualquer impedimento quanto a isso. A reflexão, como já foi dito, condiz apenas sobre o fato da moça ser a jornalista do SBT Brasil. Porém, uma flexibilidade de Sheherazade seria louvável, afinal, o presente artigo serve exatamente para isso: reflexão.
Felipe Pena afirma que mesmo no gênero comentário não deve haver juízo de valor ou intenção doutrinária. “O comentário analisa fatos, estabelece conexões e sugere desdobramentos”, diz o autor em seu 1000 Perguntas Sobre Jornalismo.
Eticamente, perceba qual foi o “desdobramento” sugerido por Sherahazade e no que ele poderia culminar. A jornalista do SBT parece estar indiferente aos efeitos de suas falas. O que impede alguém de matar um suspeito na rua e dizer que foi influenciado por Rachel? E se alguém assassinar o ex-prefeito Paulo Maluf e disser que foi influência da moça? Estará errado?
Não há como esperar que Sherahazade empunhe uma obra como O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro, e veja que o fato do suspeito torturado ser negro diz muito sobre nosso país. É impossível imaginar a moça lendo que “a mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista. Ela é que incandesce, ainda hoje, em tanta autoridade brasileira predisposta a torturar, seviciar e machucar os pobres”. Não, Rachel não lerá isto, assim como não leu “Carnavais, Malandros e Heróis”, de Roberto DaMatta, antes de tecer seu comentário de 2011.
Em suma, a fala de Rachel Sheherazade só pode ser classificada como a irresponsabilidade de uma profissional que deveria zelar por seu comportamento diante das câmeras. É um afronte que Silvio Santos permita que a moça permaneça como âncora do SBT Brasil. Ela não é jornalista, é apenas algo que fala.
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Leonardo Araujo é jornalista

Fonte: Observatório da Imprensa

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