Abismo


Eu acho incrível a complexidade das lembranças. Algumas ecoam na minha cabeça enquanto me forço a reconhecer outras.
Aquela visão cinematográfica de que quando a morte bate a porta, a gente vê flashbacks que constroem um filme sobre nossa vida é verdade.
Segundos depois sentir o último estalo do meu pescoço envolto pela corda que me sufocava, tive a visão coberta de um clarão insuportável.
E então não se sentia mais nada. O pulso não pulsava, meu corpo estava frio e eu parecia paralisado, porém leve ao ponto de me esvair por completo.
Mais um clarão, desta vez mais intenso e com leves flashes azuis. Minha cor favorita é azul, aos dez anos metade do meu armário era composto de suéteres, camisas e casacos azuis.
Azul pra mim era elegância, azul parecia ter um odor agradável que enlouquecia. O céu é azul e o céu era pra mim é sinônimo de toda a beleza do mundo.
Beleza foi o que eu mais busquei enquanto pude estar sozinho. A primeira lembrança que compôs meu filme pós-morte foi a primeira percepção do belo.
Eu tinha aproximadamente três anos de idade. Era um desses domingos de almoço em família, se era Páscoa não me lembro, mas a data era especial.
Tínhamos um rancho e nele havia o açude. Foi a maior influência da minha infância, talvez o contato direto com a natureza tenha me tornado tão aéreo.
Naquele dia vi meu reflexo esboçado na água, joguei-lhe uma pedra e observei ondas contorcerem meu rosto áureo de criança angelical.
Senti uma forte pressão contra meu peito e aí presenciei outra lembrança.
Quatorze anos: meu primeiro beijo e minha primeira infâmia aos olhos cristãos. Leonardo foi meu companheiro de sala e quem fazia meu corpo queimar.
Nunca entendi bem o sentido da sexualidade, vez ou outra pensei ser assexuado e seria, se não fosse a presença do meu amigo.
Estávamos num parque próximo ao nosso colégio que a meu contragosto era católico e extremamente conservador.
Os olhos de Leonardo eram realmente excepcionais. De um castanho cor de mel tracejado com livres tons de verde que voavam na sua íris.
Eu nunca mais achei um par de olhos tão bonito. Me encurvei sobre seu pescoço que exalava um odor azul.
Nossos lábios quentes se tocaram, sendo o ocorrido que marcou minha adolescência.
Terceira lembrança: vergonha. Meses depois de beijar um garoto o colégio todo tomou conhecimento daquele episódio.
O padre me puniu, meus colegas me puniram, meus pais não aceitaram. Rupert era um cara gordo e forte, não tinha olhos excepcionais e dispunha de falta de beleza, se pudesse ter alguma, seria da mais comum.
Pro seu porte físico era fácil encurralar um molequinho franzino como eu. Me prendeu na parede, me socou a cara e me deixou num beco sem saída. Seu motivo era a aversão por rapazes que beijavam rapazes.
Por um momento me convenci de que cometi o ato mais grotesco que um homem poderia cometer.
Quarta lembrança: dezesseis anos e o autoconhecimento.
Entendi que havia nascido pra criar, deixar uma pincelada a mais em quadros já prontos. Fui a diversos psiquiatras e um deles afirmou ‘’sua alma é artista, artistas nascem pra sofrer’’.
Eu não entendi qual era o ponto que ele quis descrever, mas a frase preencheu um vazio que inundava minha cabeça.
Quinta lembrança: a mulher.
Foi um ano depois que senti o amargo gosto de uma mulher. De amargo soava doce e de doce escorria o veneno.
Isso era o que me deixava louco sobre mulheres: a inconstância.
Descobri as diferenças entre dois corpos num seleiro perto do colégio. Minha virgindade foi liberta e de Ângela também.
A pureza foi decapitada e do forte azul de nós, um negro pecado nos tomou posse.
A partir da quinta lembrança, imagens pulsavam em frações de segundo mostrando coisas como as outras mulheres, os outros homens, livros publicados com o meu nome, minhas discussões em família e a crescente escuridão que me cercava.
O negro da alma era visto como arte para alguns, geralmente meus leitores e aqueles que se diziam meus discípulos.
Particularmente julgava isso errado: não se deve venerar uma alma que não se conhece.
Depois de umas quinze pulsadas houve a pausa numa lembrança: Leonardo aos vinte e cinco.
Eu já estava no ápice da minha carreira beirando o suicídio de não poder amar. Foi quando pela segunda vez reconheci os olhos mel-esverdeados.
Nosso reencontro me marcou por mais um ano e pude entender que só se ama uma vez.
Por vinte e sete anos a podridão das pessoas me conteve de expor meus interesses. Se você tem opiniões contrárias às consideradas aceitáveis, te apedrejam. A sociedade é um garoto gordo que encurrala pessoas na parede.

Meu filme de fato não representava muita coisa, mas da minha curta e simples vida tirei uma conclusão: o amor é abismo e entregar-se a ele é o salto.

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