Ilhas


Sentir é exprimir as palavras, apagar as dores e fotografar os momentos de alegria. Existem dois lados que geram os vários outros sentimentos humanos: felicidade e tristeza.
Nenhum dos dois bem explicado; buscar um sentido além do denotativo destes, é o mesmo que querer descrever a liberdade.
O que se sabe é que a criança nasce chorando, mas não dá pra definir o porquê. Eis uma faca de dois gumes. O choro.
O choro pode ser a libertação de uma podridão interna e o florescimento de brotos de alegria. É a reação alérgica do sentir.
Os dois caminhos traçados desde os primórdios são por si só a complexidade humana. Não existe ninguém completamente triste ou feliz. Ou você equilibra, ou se afunda na totalidade.
São sim necessárias as duas reações alérgicas: o choro de dor e o choro de amor. O que te faz se sentir fraco e o que te faz sentir leve.
Guardar é sufocar, é cavar a própria cova e assistir ao enterro com um pote de pipoca. O que penso é que cada pessoa é um monte de terra num oceano de gente.
Cada ilha é cultivada pela afinidade pelos caminhos que são expostos através do que o cara escolheu. Você manda um convite pra festinha particular da sua maneira.
Produz arte, delitos, loucuras, infâmias, histórias ou falsas-histórias. Se necessário for ir a fundo, você naufraga no mar interior do indivíduo.
Cada pessoa é uma ilha. Quem dá o primeiro sinal de fumaça na terra perdida é o real colono. Quem tenta invadir geralmente se afoga.
Afogamento é a pior das condenações. Você se debate, grita e é calado por uma onda, olha de relance a luz do sol já distante e aos poucos se vê submerso.
Então, quem quer entrar num universo que não é seu? Se é difícil cuidar da plantação da própria casa, mais difícil ainda é vigiar as pragas que atacam a dos outros.
Nesses contos é que aparecem os finais quase impossíveis, é quando existe alguém que nada contra a corrente pra tentar permanecer em terra firme.
Há quem jogue concreto nos pés pra não deixar o território, nesse momento aparecem os sentimentos secundários do homem: a compaixão e o apego.
São os dois que continuam a corrente dos enigmas das ilhas, estes são como as máscaras de oxigênio que prolongam a estadia na terra de outrem.
A partir daí temos as raízes que interligam ilha com ilha, o conector de cada dia. A gente acorda, vai pro trabalho, conversa com o colega e retira nosso convite.

Comparecer ou não é uma escolha, administrar os dois caminhos não só pra si, mas pra quem está ao redor é primitivo. Ninguém nunca vai conseguir fazer dos sentimentos algo compreensível, mas se conectar pra deixar que eles se mantenham vivos é questão de existir.

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