Fuga


Sempre acreditei que a adolescência era o momento de entender e aceitar todos os dias que seguirão todas as vidas.
Sonhos são criados a partir do momento em que se pode escolher, em que há o contato com todo tipo de influência. Quando fui moleque, meu ideal de futuro era considerado estúpido demais até pra mim.
Por esse motivo me fechei, preferia não expor minhas ideias, porque sempre que o fazia surgia um filho da mãe pra apontar o dedo na minha cara.
No colégio um padrão era fixo: vestibulandos. Todos nós éramos direcionados às melhores faculdades públicas que as classes médias podiam oferecer.
Eu seguiria os caminhos dos meus pais, que se esforçaram pra disponibilizar da melhor educação, dos melhores professores, das melhores marcas de roupa, os colchões mais confortáveis e o entretenimento massivo.
Infelizmente me encantei com relatos de malditos, dos escritores desgraçados e os caras que cruzaram oceanos pra conseguir escalar o topo da colina.
Foram eles que me excitaram a ser elevado espiritualmente, sentado sozinho em meio a multidões, viajando até que anoitecesse e eu pudesse ver o nascer do sol submerso num mundo de sorte e azar.
Azar porque de loucos o mundo é escasso. É visivelmente mais fácil dedicar um pedaço da liberdade estudando pra formação e o falso contentamento dos bens materiais.
Ser imensamente livre é caminhar sozinho.
Viver é mais intenso e expressivamente complicado. Se você nasce está restrito a muitas coisas a partir do nome. É ele que define, sendo a identidade o que codifica e o salário o que consome.
Eram inconformismos do gênero que me transportavam pra outras dimensões. Comecei a me interessar por norte-americanos chapados que percorriam a estrada com caronas, sexo e experiências.
As histórias que conheci me maravilhavam, a cada linha lida eu parecia estar mais apto à liberdade. Era só um conceito que me fissurava: sentir.
Estar em todos os lugares, encontrar várias respostas entre outras perguntas e ser por elas guiado. Era isso.
Objetivar é por si só, algo que prende. Optei por ser impulsivo.
Nunca fui religioso, tampouco tinha em que acreditar. Minha fé era específica; eu fazia do meu corpo, meu templo.
Acreditava que se eu tive a oportunidade de nascer, era por um propósito maior que cultivar uma família e o bem-estar.
Fui bastante solitário e não nego. Na verdade eu via a solidão como uma válvula de escape.
Sem ninguém pra encher o saco ou enfiar pressão na minha cabeça, eu podia visitar o universo que criei.
Eu via muita gente vinculando felicidade à estabilização. Pensava justamente o contrário, pensava que era feliz quem fosse instável.
Quis fazer da estrada minha casa, dos vícios meu sustento, dos amores perdidos uma família.
E fiz. Fiz enquanto pude, enquanto fui repleto de desejo e euforia e prazer e juventude.

A liberdade é apresentada só uma vez, crescer é o que causa a cegueira, cabe a cada um aprender como voltar a enxergar. 

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