O cara que pulou sonhava em voar, e voou.


Eu lembro em partes, lembro dos flashes, das câmeras, da multidão trêmula e cheia de culpa. Eu lembro do corpo: eram vários vestígios espalhados, havia fita isolantes incrustada nas feridas, havia marcas de agulha recentemente injetadas, era bem provável que estivesse enlouquecendo. O cara tinha um rosto oval, e isso me incomodava, eu não costumava vir por aí rostos assim, me incomodava mais do que tanto sangue coagulando e a multidão abafando o espaço.
Eu andava tranquilamente naquele dia, estava em busca de qualquer imprevisto que desviasse minha rotina de trabalho-casa-banho-televisão: encontrei. 
Encontrei e até me perguntei o porquê daquilo de ''quem procura, acha'', eu sempre julguei essa frase um grande aglomerado de merda; não é, e descobri isso vendo, o que me fez passar de um troglodita estúpido, cético e vil, para um cara de mente mais abrangente as novas ideias.
Pois bem: eu lembro de ter conferido as horas no meu celular há alguns minutos antes do ocorrido, os pixels marcavam 18:14, e essa combinação de números também me incomodou, tudo o que me parece certo ou parte desse estereótipo todo, me incomoda.
Ouvi um molequinho gritar algo assim: ''tio, desce daí seu bosta, e vê se para de injetar essas porcarias na veia!''.
Primeiro pensei em como é que o moleque pôde ter falado daquele jeito com o suicida, na minha época se o menor chamasse o tio de ''seu bosta'', no mínimo a metade da boca era soterrada em meio ao couro do cinto da mãe. Ah! A educação, coisa gloriosa, não?!
Enfim, o cara estava acabado, minha teoria era: ‘’tem cara de físico, deve ter prestado pro vestibular, se suicidado de tanto estudar e chegado na ''hora h'' e cagado na prova toda, portanto, com o auto-desalento, alugou um apartamento vagabundo no subúrbio da cidade, ouvindo rock psicodélico e passando horas alucinadas. Bêbado, solteiro, sem perder o cabaço jamais e se drogando feito um escravo, voltando à mesma decadência todos os dias’’
Mas era só minha visão daquilo tudo, não sei, quem é que sabe se ele não foi um empresário que se banhava na fortuna que e gastou tudo em bordéis, até que o fracasso batesse a porta?
Que me perdoe pela minha dispersão contínua do assunto, voltando: o moleque cretino falava merda atrás de merda, e o cara – que parecia estar doidão naquele momento - o observava com desdém e culpa. 
E o moleque continuou, e falava, e falava, e xingava tanto o rapaz que eu logo daria um soco naquela cara de chupada de mauricinho repulsivo. O rapaz observava tudo, e então, sem mais nem menos, ouviu-se uma quebra de ossos.
Que loucura! A clavícula dele estava exposta, e o corpo todo ensanguentado, hemorragias cresciam à medida que ele ainda ficava ali estirado no asfalto, mas obviamente, o cara já estava morto.
Eu criei em mim uma esperança, criando uma empatia, um despertar de um lado humanitário que nunca tive. Pensei na família, na dor de perda.
Gritei por socorro, um rapazinho (muito simpático, por sinal) saiu da loja de conveniências em que trabalhava e foi tentar prestar ajuda ao maluco.
Um pessoal logo começou a rodear o morto. Tinham umas peruas com odor de vodca que só estavam ali para contemplar o ‘’fenômeno’’, já que nossa cidade é relativamente pacífica, o índice de suicidas é bastante baixo por aqui.
Eu juro que queria surrar suas caras também, era um bando de imundas.
Depois de algumas horas, veio a equipe de repórteres para criar a notícia de que um homem havia saltado do oitavo andar.
Os flashes cegavam, aquilo me deixou mais enfurecido do que tudo, mas o pior mesmo, foi o pentelho que insultava o cara, que depois de vir o tio pulando, saiu rapidamente dali e aos tropeços. É claro, ele sabia de algo que todos nós ali presentes não sabíamos. 
Resolvi procurar por ele, não sei porquê, mas resolvi. Entrei numa mata fechada onde pude perceber os movimentos do moleque.
Eu encontrei: puxei o cretino pela gola da camisa, sem ao menos conhecer, sem querer pensar num motivo que explicasse a situação. Não me importava, o cara se matou, e uma vida a menos poderia ter influenciado milhares delas.
O menino se mijou todo, eu queria caçoar da sua cara, mas aquilo seria muito injusto de minha parte. Era um covarde, enquanto chamava o tio de cagado, estufava o peito, mas quando foi agarrado por um gordo como eu, se mijou? Pura covardia!
– Desgraçado, molequinho desgraçado! Seu tio acabou de se atirar e você vazou dali, não é? Eu deveria aqui mesmo dar uma surra em você, assim talvez aprenderia a respeitar, eu fui educado com muita perseverança, minha disciplina é grandiosa. Mas como não sou sua mãe, não tenho esse direito, mas apenas saiba o quão desagradável é... Moleque sem educação.
O menino chorava, e nada mais dizia, chorava como um condenado a morte súbita, e eu ali, o segurando pela gola, encaixando o seu corpo num tronco de uma árvore.
Larguei, deixei que fosse, deixei que esvaísse das minhas mãos. Ele chutou meu saco. 
– Sabe o que é? Meu tio era meu pai, na verdade, meu pai é um vadio que saiu de casa aos dezesseis, quando engravidou minha mãe, aos quinze, saiu de casa. 
Minha mãe me deixou com o meu tio, que era um músico, tocava Hendrix quase sempre, eu amava aquilo. Se drogava feito um louco, sim, mas eu ignorava.
Ele me criou naquele projeto de apartamento, e éramos felizes, até que o mesmo foi convidado a tocar numa banda profissional e enriqueceu.
Ficamos assim por anos: ele para lá, eu para cá e nosso afeto ignorado.  
Um dia ele me surrou e um ódio gratuito foi cultivado por nós dois.
E sabe qual foi o real motivo de termos discutido? Ele agarrou o sonho, e a cobiça de sonhar muitas vezes é maior que a realidade que cerca. Quem se dá bem, acaba despindo as alegrias, tudo fica cru, mal cheiroso. Ele foi músico, o melhor. Mas o cara que estava aqui mais não esteve mais depois de alguns anos. Seu desgraçado, saia da minha frente, mas antes, ouça o que te digo: sonhe com fé, mas não mate quem não te mataria.

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