Veneno de cobra


Ela inseria a língua na minha boca e a fazia se debater louca e desesperadamente como uma serpente conduzida por uma flauta.
O tempo não pertencia a mim, ela cronometrava e o moldava conforme sua vontade. Quando ela queria, interrompia todo o processo, sentava na cama e acendia um cigarro.
Tinha um quê de pilantra, um ar melancólico e um andar delirante.
Às vezes eu me cansava e encostava na parede esperando que ela fizesse o ritual sagrado: dez minutos em média até que ela detonasse o cigarro no cinzeiro, mais alguns minutos sentada olhando a luz do abajur. Se aproximava de mim de novo e esperava pela minha redenção.
Estávamos conectados outra vez, eu basicamente entregava minha alma de graça àquela mulher.
Eu encontrei essa garota num semáforo despida de emoção, com os olhos inchados e ferida nas veias entupidas de heroína. Ela era louca, uma vadia, livre de qualquer catraca que a barrasse de dar os passos que quisesse.
Passadas algumas horas, ela abria a porta do apartamento, botava o casaco sempre jogado no sofá e saía sem despedidas muito longas.
‘’Às vezes acho que você não dá a mínima em estar aqui. ’’ Eu disse depois de uma de nossas transas.
‘’É, eu realmente não dou.’’ Baforou a fumaça do cigarro na minha cara.
‘’Então por que sempre volta? Não é bem mais fácil sumir de uma vez?’’
Ela deu um sorriso amarelado pela nicotina, beijou meu pescoço e sussurrou no meu ouvido: ‘’tô te fazendo consumir sua vontade de se entregar a alguém. ’’
Mais uma vez ela saiu, agora não disse nada. Apenas abotoou suas roupas e silenciou enquanto me aprisionava na sua armadilha.
Eu tava fodido. Perdia algo e não sabia o que, totalmente submerso no oceano que era aquela mulher.
Passaram-se meses e não a vi mais uma única vez. Senti falta do seu espartilho jogado na cama, de como ela me fazia sentir um idiota e do cheiro de perfume masculino, que de um jeito estranho, intensificava sua sensualidade feminina.
Numa quarta-feira, fiquei maluco quando vi a manchete no jornal ‘’GAROTA DE 17 ANOS SUICIDA-SE (...)’’. Mesmo nome e mesmo rosto. Ela se jogou da varanda do apartamento do pai e ninguém soube o porquê.
Tudo se foi: sua beleza, seus encantos, seus gestos intensos e até a lábia pra atrair filhos da puta como eu. Mas, de certa forma, ela era só isso: sexo e pó.

Nela nunca houve mais nada além do veneno de uma cobra doente; derramado na boca de quem se alimenta da própria mentira.

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