The end


”…This is the end, my only friend, the end”. A voz de Morrison ecoava na minha mente, e sabotava meus ouvidos, fazendo com que por um momento, eu entrasse em hipnotismo total com os sons. Minha janela estava fechada, deixando só a luz ofegante da lamparina esfolando meu rosto. ”… The end” e a música parecia aumentar a frequência como se quisesse me sufocar de um jeito carinhoso e brutal. ”…The end”. Eu esperava por um telefonema que pudesse desintegrar a minha loucura momentânea.A música continuava a tocar, bailando sozinha e me enforcando sem que eu percebesse.
Ouvia por entre as paredes vozes clamando pelo fim. Tudo parecia girar, e eu achando que a grande serpente logo apareceria para uma visita inusitada.
”…The end” e o silêncio começava a berrar, cantarolar uma ópera negra para a completa fase de lua minguante. O fim?
Era confuso, eu só desejava ouvir outra voz que não fosse aquela velha e manipuladora. 
E o fim estava próximo, por um certo momento comecei a sentir sua promiscuidade frente a frente comigo. Talvez devêssemos entrelaçar as mãos e seguir o caminho mais esburacado. Ou talvez eu devesse apenas fugir para qualquer abrigo que me fosse concebível.
”… The end”. Jim parecia soletrar a frase á cada repetição, como se aquilo devesse de fato, infiltrar em mim. A música parecia nunca findar. Na verdade, ela rodava e rodava dezenas de vezes na vitrola, eu tinha um vinil dos Doors há muito tempo. Ganhado de alguém que não deveria ter preocupação em me dar.
Mais um vez, a música se repetia. Eu estava numa transição da vida para uma dimensão distante e totalmente desconectado do mundo. Então entrava a cena do assassino, deixando o ônibus azul e se aproximando de mim. ”… Mother, I want to… Fuck you”, e então o som do teclado começou a se desconfigurar vagarosamente e eu parecia ser sugado pelo chão. Em meio a gritos de psicopatia e insanidade. Fechei os olhos devagar e voltei para a terra com a consciência perdida.

Desconectei da vitrola o vinil, enxuguei as lágrimas que doíam ao escorrer no meu rosto, abracei a almofada e, finalmente ouvi telefone que ás custas resolveu dar as caras. Uma melodia baixa, levíssima. ”Alô?”. Deixei como resposta meu silêncio por alguns segundos, e num suspiro distante soltei ”O fim…”, até que caiu a ligação.

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