Estranheza


Parte I:
O caminho era um só: duas ruas abaixo do Café Sta. Bárbara depois do semáforo, se encontrava o Colégio de Inglês.
Não havia erro mesmo pra alguém totalmente aéreo, aquela rota era certa até pra uma criança de colo.
Com os lábios rachados pelo calor, limpava o suor da dobra do queixo com a mão também suada. Encostou-se no poste quando viu o letreiro do colégio escrito em vermelho.
Com ele, havia apenas mais dois alunos na fila de espera: uma menina ruiva e um cara com ar de neo-nazista todo vestido de preto e levando no pé um coturno militar.
O estranho, é que mesmo com um ano e meio cursando o mesmo lugar, nunca havia percebido o garoto que por si só era destaque.
Aquilo provavelmente era toda a beleza do mundo. Kyle era especial porque sabia separar o ordinário do único.
Os grandes eram únicos. Se você nasce com o próprio estilo, morre com ele. John Kennedy nascera com estilo e por isso, teve no fim seu cérebro nas mãos da esposa.
Melhor morrer aos 24 e tornar-se ícone, que viver até os 60 solitário.
Kyle defendia essa tese, mesmo que nunca viesse a se tornan um ícone, era também um moleque ordinário, a única diferença é que podia ver beleza num cactus e feiura numa super-modelo.
No quase-general, havia encontrado o excepcional. Um tom fúnebre em contraste com a pouca luz que esvaía dos seus olhos.
Era cinematográfico, deveriam fazer dele uma escultura grega, pensava.
Kyle, que se via sozinho nas locadoras, nos confins da biblioteca, na praça de alimentação do colégio, agora se sentia livre de tudo isso.
Depois do primeiro cumprimento, logo estavam os dois selando a beleza num beijo terno, tocando as nucas e os cabelos e os braços e os olhares.
Transferiam a podridão da língua e o suor dos rostos. Kyle vivenciava pela primeira vez, o que era realmente Belo.
Precisou parar quando como num clarão de tiro, seu nome fora chamado pela coordenadora pra conferir o resultado dos testes.
Ele despertou, ainda imóvel encostado no poste.

Parte II:
Se virasse cento e oitava graus, me viria aqui. Uma hora ou outra vai se dar conta de que é necessário olhar pra cá.
Quando a pessoa está entre outras, é preciso socializar, é primitivo.
Talvez um carro bata no cruzamento e aí, precisaríamos todos ir socorrer a vítima. Se a coordenadora nos reunísse numa sala só, o contato seria mais tangível.
Um pouco do bonito sai de mim, e toda beleza é perceptível. Se ele pudesse ver as covinhas no meu queixo, viria o incomum.
Se pudesse ver que a íris dos meus olhos é levemente esverdeada, certamente nos falaríamos.
Existem detalhes mesmo que minimalistas, que se sobrepõe em mim, não é?
Ah, é claro. Ele vai notar meus cabelos já longos, é um ponto a ser notado.
Por sorte, é a hora do resultado. Cruzo os dedos, pego na mão das minhas descrenças e assim a gente segue.

Parte III:
Espero por 2,0. Não é tão difícil entender que não suporto línguas. Enquanto procuro meus próprios conhecimentos, enchem o meu saco me enfiando matéria de vestibular.
Tudo bem, é até compreensível a preocupação, aos 16 já é momento de estar fissurado nisso e meu emprego na cafeteria não é eterno, a não ser que eu seja a amante do gerente.
Não é isso que eu quero, não vale a pena. Ser amante de gerente significa estar a prova de fogo.
Daqui a pouco, estaremos sentados em cadeiras desconfortáveis e a coordenadora começará o discuro.
Primeiro, vai parabenizar o Kyle, o viadinho é esperto. Desde novo nomeado o aluno de ouro do colégio.
A gente nunca parou pra se falar, mas provavelmente é daquele tipo que deixa vazar interesse.
Inclusive, ele não para de olhar pro esquisitão, está tão visível que fica constrangedor.
Sinceramente, não entendo como. Com um desses, só é amante gente doente.
Bom, agora que seja aceita a menor nota da sala.

Parte IV:
Os desgraçados me olham e nem disfarçam, exatamente do mesmo jeito que papai olhava. Admiração e medo. Mais medo que admiração.
Papai me admirava por saber atirar, tinha medo porque atirava em tudo, sem piedade. ''Que porra de monstro eu criei?''
A maldita frase ecoa desde os 14 anos. Por dois, me vi num hospício sem ser confiscado numa solitária ou tomar remédios.
E na verdade, pouco importa. Te olham no trabalho, te olham na rua, te olham nos bares e nos shows.
Se não olhar, não é humano. O menos sutil é o menino do poste, já virou incômodo.
O que eu sou agora, um sex symbol dark? Porque existem os viadinhos que me idolatram me pondo numa posição de Major, General, Capitão e Fuher.
Mal os trouxas sabem que não me interesso por posição política ou por sexo. Pra mim é tanto faz.
O que me importa agora é a média.

Parte V:
Depois do resultado, fez-se o esperado: um 2,0, um 10,0 e um 6,0.
As notas se encaixavam nos estereótipos que eles mesmo criaram sem saber.
E na verdade, eles só pensavam ser o que eram, tinham estilo suficiente pra afirmarem suas identidades mesmo sem certeza do porquê.
Kyle se dizia uma mulher detalhista, não era. Misty se dizia um vadia junkie, não era. Peter, um maluco injustiçado, não era.
Nenhum deles era um corpo de forma própria, eram somente três fantasmas do narrador, seus ideais de comportamento se manifestando ao mesmo tempo.
Busca pela perfeição, indiferença e auto-destruição numa só entidade.

Ter estilo é morrer com membros na mão. 

0 comentários:

Não serão aceitos comentários que envolvam crimes de calúnia, ofensa, falsidade ideológica, multiplicidade de nomes para um mesmo IP ou invasão de privacidade pessoal / familiar a qualquer pessoa. Comentários sobre assuntos que não são tratados aqui também poderão ser suprimidos, bem como comentários com links. Serão suprimidos todo e qualquer comentário com teor preconceituoso.