Existir


Buscava pela profunda investigação da existência em dias calado recitando discursos profanos em mente.
Deitado naquele quarto sendo devorado pela mesma lamparina, sob o afago do ego que sufocava. Solidão é morte lenta.
Te devora, crucifica, apedreja. Me reinventava como um Cristo alternativo, que desceria da cruz e diria aos seguidores: fodam todas as coisas que caírem a sua frente e mergulhem num lunático mundo underground. É meu único mandamento.
Eu glorifiquei a vida nas estradas sentado numa poltrona. Não seria um bom devoto.
Aos poucos entendi que nunca houve total limitação da existência: ela se cria. Você existe de todas as formas e as escolhe, bordando seu destino.
Não o bordei. Existo no meu quarto, existo me queimando com café, existo enquanto me satisfaço sozinho. Só existo. É a existência miserável que não entendo.
Eu nunca quis escrever.
O que eu queria mesmo era sacudir as ruas de Nova Iorque e botar merda na cabeça dos adolescentes da próxima geração.
Visitando cenários da vida noturna, sorrindo entregue ao efeito do álcool, suportando cheiro de foda e naftalina. Chapado, negligenciado pelos deuses, livre e condenado por isso.
Como aqueles astros que de tanto fantasiar a existência intensa acabaram apontando a si mesmos uma pistola na sala de estar.
Eu cresci isolado e perdido dentro da minha condenação pessoal criando situações em que eu ficava sob holofotes. Ouvia a multidão gritar meu nome trêmula e assustada, ao mesmo tempo reinventando neles seus Cristos espelhados naquele que criei.
E tudo a minha volta é um pedaço sem significado de mim. Procurando me libertar e limitando todo o universo que sou.
Tudo que se faz, se ouve, se fala, é uma tentativa desgastante e desesperada de autoconhecimento. A vida por si só é uma bomba atômica em contagem regressiva.
É o intenso movimento do sexo abatido pela ausência do amor. É a batalha eufórica arruinada pela falta de planejamento. É tudo que se ganha e se perde em dobro.
Só conhece a perda quem aposta, quem se atira, quem fala mais do que ouve.
E nunca fui desses caras. O silêncio me prendia em seus jogos de loucura que me causavam insônia.

É exatamente esse o motivo pela qual exercito meus dedos num digitar débil e devagar: não viver; limitar-me a existir, buscando nas palavras a condição de sonhar.
Nas nuvens me faço gigante.

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