O adeus da inocência


Sou todo erro quadrado, sou todo fiapo de pele arrancado a dentes. Eu sou a briga dos cães, o palavrão dos homens, a língua seca de palavras e o gesto bruto.
Venho me transformado na cidade alta, nos arranha-céus que cortam as nuvens e na fumaça que respiro.
A personalidade pueril de uma criança se vai quando ela tira a primeira peça de roupa ou quando acende o primeiro cigarro. 
Some o pudor e brota como erva daninha o calor sexual da vida adulta. Isso vem me consumindo, talvez antes do tempo, talvez demasiadamente tarde. 
Tudo que me envolve é escasso de inocência, como se os garotos perdidos tivessem se tornado marginais num piscar de olhos. Aquelas fábulas de domingo agora são o noticiário sangrento da televisão.
Crescer é o fardo que se carrega por acionar a válvula do mundo. Quando se é grande demais pra entrar nas roupas coloridas, o que se espera é o momento de lutar pra convalescer. 
Adultos são por espirito gigolôs mantendo no sexo a da falta da mãe, morando em sarjetas do tamanho de seus grandes escritórios milionários.
Não é apenas evolução física. Crescer é a metamorfose maldita que troca a possibilidade de sonhar por um maço de Malboro e uma pilha de cheques.

0 comentários:

Não serão aceitos comentários que envolvam crimes de calúnia, ofensa, falsidade ideológica, multiplicidade de nomes para um mesmo IP ou invasão de privacidade pessoal / familiar a qualquer pessoa. Comentários sobre assuntos que não são tratados aqui também poderão ser suprimidos, bem como comentários com links. Serão suprimidos todo e qualquer comentário com teor preconceituoso.